A contabilidade fiscal talvez seja uma das principais preocupações dos micro e pequenos empresários quando o assunto é a relação empresa-Fisco.
Afinal, a carga tributária bruta do governo geral ficou em 32,40% do PIB e muito disso recai sobre as empresas, com impactos importantes sobre os resultados.
Além do custo elevado, pagar os tributos em dia no Brasil é uma tarefa difícil, dada a complicação que é o ordenamento tributário nacional.
Há uma infinidade de leis, normas e regulamentos que não facilitam em nada a vida do empreendedor.
Nesse contexto, a função da contabilidade fiscal é ajudar os contribuintes no cumprimento da legislação, como você confere ao longo deste artigo.
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O que é contabilidade fiscal?
A contabilidade fiscal, conhecida também como contabilidade tributária, é uma especialidade contábil que lida com o gerenciamento das obrigações fiscais de uma empresa perante o governo.
Tem esse nome porque envolve a relação entre o contribuinte e o Fisco, especialmente no processo de registro, análise e controle dos fatos geradores.
Cabe mencionar que as obrigações tributárias às quais as empresas estão sujeitas se dividem em dois grupos:
- Obrigações principais: surgem com a ocorrência do fato gerador e têm como objeto o pagamento de tributos ou penalidades pecuniárias
- Obrigações acessórias: correspondem a deveres previstos na legislação tributária no interesse da arrecadação e da fiscalização, como emitir documentos fiscais, manter escriturações e prestar informações ao Fisco.
Como funciona: o governo cruza os dados das declarações acessórias para se certificar de que o contribuinte pagou corretamente os impostos, taxas e contribuições.
Ocorre que pagar impostos e prestar contas nem sempre é um processo fácil, mesmo para as empresas optantes pelo Simples Nacional.
O principal foco de atenção da contabilidade fiscal, portanto, é garantir que a organização cumpra as leis fiscais e recolha os tributos da forma mais eficiente possível.
Qual a diferença entre contabilidade fiscal e contabilidade gerencial?
A contabilidade fiscal, como vimos, visa garantir que a empresa atenda às exigências legais perante o Fisco, garantindo o compliance tributário.
Sua função é bastante específica e essencial para a sustentabilidade do negócio no longo prazo.
A contabilidade gerencial, por outro lado, foca na geração de informações para a tomada de decisões, visando melhorar o desempenho e a eficiência da empresa.
Sua função é municiar o gestor de informações de qualidade sobre os mais diversos aspectos do negócio, não apenas o fiscal-tributário.
No caso de empresas que possuem sócios-investidores, a contabilidade gerencial serve também como instrumento de prestação de contas.
Em outras palavras, podemos afirmar que a contabilidade fiscal é bastante específica e restrita, ao passo que a contabilidade gerencial é mais abrangente e completa.
Qual a importância da contabilidade fiscal?
A contabilidade fiscal é importante porque organiza a relação da empresa com o Fisco e ajuda a garantir que tributos, declarações e demais obrigações sejam cumpridos corretamente e dentro dos prazos.
Esse trabalho vai além de calcular impostos, pois envolve conferir documentos fiscais, identificar fatos geradores, aplicar as regras de tributação e verificar se as informações enviadas aos órgãos públicos são coerentes entre si.
Veja quais são os principais benefícios.
Redução de riscos fiscais
Com a digitalização da fiscalização, Receita Federal, estados e municípios utilizam sistemas eletrônicos para cruzar informações de notas fiscais, declarações, folha de pagamento e recolhimentos tributários.
Por isso, uma contabilidade fiscal bem estruturada ajuda a identificar inconsistências antes que elas resultem em notificações, multas, cobranças ou necessidade de retificação.
Entre os principais riscos que esse acompanhamento ajuda a reduzir estão:
- Recolhimento incorreto de tributos
- Atraso no envio de obrigações
- Divergências entre declarações e documentos fiscais
- Erros de enquadramento tributário
- Formação de passivos fiscais.
Mais previsibilidade para o caixa
A contabilidade fiscal também contribui para a previsibilidade financeira, pois permite estimar os valores de impostos a pagar e incorporá-los ao planejamento do fluxo de caixa.
Com isso, o empresário reduz o risco de comprometer recursos que seriam necessários para outras despesas da operação.
Apoio ao planejamento tributário
Outro papel importante está no planejamento tributário, que analisa fatores como regime de tributação, atividade exercida, faturamento, folha de pagamento e características das operações da empresa.
Uma empresa enquadrada no Simples Nacional, por exemplo, não deve presumir que esse será sempre o regime mais econômico apenas por reunir diversos tributos em uma única guia.
Comparar Simples Nacional, Lucro Presumido e Lucro Real, quando esses regimes estiverem disponíveis para a empresa, ajuda a identificar qual alternativa oferece uma tributação mais adequada às características do negócio.
Por isso, a contabilidade fiscal não serve apenas para manter a empresa regular perante o governo, mas também para melhorar o controle dos custos tributários, apoiar o planejamento financeiro e dar mais segurança às decisões do empresário.
O que faz a contabilidade fiscal?
As funções da contabilidade fiscal podem ser mais ou menos complexas dependendo do regime tributário escolhido pela empresa.
O Simples Nacional é o regime mais prático em termos de exigências do Fisco, o que o torna ideal para boa parte das empresas brasileiras.
O Lucro Presumido tem um nível de exigência maior e utiliza percentuais definidos pela legislação para determinar, a partir das receitas e de outros valores previstos nas normas tributárias, as bases de cálculo dos impostos.
O Lucro Real, por sua vez, é o mais completo e também exigente.
Para fazer parte dele, as empresas precisam de uma contabilidade fiscal estruturada, com balanços e demonstrativos detalhados.
Também devem emitir e manter os documentos fiscais exigidos pela legislação para as operações sujeitas a essa obrigação.
De maneira geral, independentemente do regime de tributação, as funções da contabilidade fiscal podem ser resumidas da seguinte maneira:
Registro e escrituração dos fatos geradores
Uma das funções básicas da contabilidade fiscal é registrar todas as operações do negócio, como compra e venda, prestação de serviços, rendimentos de aplicações financeiras, investimentos, etc.
São transações que podem gerar obrigações fiscais e que precisam, portanto, ser documentadas e categorizadas.
Cálculo e recolhimento de tributos
Com os registros devidamente organizados, o passo seguinte é calcular corretamente os impostos devidos, tanto no âmbito federal quanto estadual e municipal.
A apuração desses impostos varia de acordo com o regime tributário escolhido.
Empresas do Simples Nacional pagam até oito tipos de tributos em uma única guia, o DAS (Documento de Arrecadação do Simples Nacional).
Nos regimes Lucro Presumido e Lucro Real, os tributos são apurados conforme regras e períodos próprios e recolhidos de acordo com a sistemática aplicável a cada um.
Elaboração e envio de declarações acessórias
É função da contabilidade fiscal também preparar e transmitir as obrigações acessórias exigidas pelo Fisco, de acordo com o regime tributário, a atividade e as operações realizadas pela empresa.
Alguns exemplos são:
- DEFIS: Declaração de Informações Socioeconômicas e Fiscais
- DeSTDA: Declaração de Substituição Tributária, Diferencial de Alíquota e Antecipação
- EFD-Reinf: Escrituração Fiscal Digital de Retenções e Outras Informações Fiscais
- eSocial: sistema utilizado para o envio de informações trabalhistas, previdenciárias e tributárias
- DCTFWeb: declaração utilizada para confessar débitos de contribuições previdenciárias e de outros tributos informados por meio do eSocial, da EFD-Reinf e do Módulo de Inclusão de Tributos (MIT).
Como funciona a contabilidade fiscal em cada regime tributário?
Como destacamos antes, a rotina da contabilidade fiscal varia de acordo com o regime tributário da empresa, já que cada um possui formas diferentes de apuração dos impostos e de cumprimento das obrigações perante o Fisco.
Por isso, duas empresas com atividades semelhantes podem ter processos fiscais bastante diferentes dependendo do enquadramento escolhido.
Entenda melhor a seguir.
Contabilidade fiscal no Simples Nacional
No Simples Nacional, diversos tributos são calculados de forma unificada e recolhidos por meio do DAS, o que simplifica parte da rotina fiscal das micro e pequenas empresas.
O valor devido depende de fatores como faturamento acumulado, atividade exercida e anexo de enquadramento, além do fator R em determinadas atividades de prestação de serviços.
Mesmo com a simplificação, a empresa precisa manter documentos fiscais organizados, informar corretamente suas receitas no PGDAS-D, entregar a DEFIS e cumprir outras obrigações relacionadas à sua atividade.
Também existem situações em que determinados tributos não estão incluídos no DAS e precisam ser apurados separadamente, como ocorre com a contribuição previdenciária patronal nas atividades enquadradas no Anexo IV.
Contabilidade fiscal no Lucro Presumido
No Lucro Presumido, a legislação estabelece percentuais de presunção aplicados sobre as receitas para determinar as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL.
Esses percentuais variam conforme a atividade exercida, o que torna importante classificar corretamente as receitas e acompanhar cada operação da empresa.
A contabilidade fiscal também precisa controlar os demais tributos incidentes sobre as atividades e garantir o envio correto das obrigações exigidas nesse regime.
Desde 2026, determinadas empresas no Lucro Presumido também precisam observar as novas regras que elevaram os percentuais de presunção aplicáveis à parcela da receita bruta anual que ultrapassa R$ 5 milhões.
Contabilidade fiscal no Lucro Real
No Lucro Real, o IRPJ e a CSLL são apurados a partir do resultado contábil da empresa, com as adições, exclusões e compensações previstas na legislação tributária.
Por esse motivo, esse regime tende a exigir controles contábeis e fiscais mais detalhados e uma integração maior entre as informações financeiras, contábeis e tributárias.
Receitas, custos, despesas e demais operações precisam estar corretamente registrados e documentados para que a empresa determine sua base tributável e cumpra as obrigações acessórias correspondentes.
Portanto, escolher um regime tributário não altera apenas o valor dos impostos, mas também a forma como a contabilidade fiscal da empresa precisa ser organizada.
Como a Reforma Tributária afeta a contabilidade fiscal?
A Reforma Tributária do Consumo está mudando gradualmente a forma como as empresas calculam, registram e informam seus tributos sobre o consumo.
O novo sistema criou dois tributos: a CBS, de competência federal, e o IBS, de competência estadual e municipal, que substituirão progressivamente tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS ao longo do período de transição.
Em 2026, a reforma já entrou em fase de implementação, com novas exigências relacionadas aos documentos fiscais eletrônicos e à adaptação dos sistemas utilizados pelas empresas.
Para a contabilidade fiscal, isso exige atenção redobrada à configuração dos sistemas, emissão correta das notas fiscais, classificação das operações e acompanhamento das obrigações acessórias.
E como fica o Simples Nacional?
As micro e pequenas empresas optantes pelo Simples Nacional também serão alcançadas pelas mudanças, mas seguem regras e prazos específicos, conforme um cronograma de transição.
As alterações relacionadas à CBS e ao IBS dentro do Simples Nacional passam a produzir efeitos, em regra, a partir de 1º de janeiro de 2027.
Por isso, mesmo as empresas que permanecem no Simples precisam acompanhar a transição e preparar seus processos fiscais, sistemas de emissão de notas e rotinas contábeis para as novas exigências.
Durante esse período, o acompanhamento de um contador ganha ainda mais importância para identificar quais mudanças afetam cada empresa e evitar erros na adaptação ao novo sistema tributário.
Como aplicar a contabilidade fiscal na sua empresa?
Em maior ou menor intensidade, a contabilidade fiscal faz parte da rotina de toda empresa, embora nem sempre os processos sejam eficientes.
Dados do Programa Receita Sintonia, da Receita Federal, mostram que mais de 10,8 milhões de empresas foram avaliadas quanto ao nível de conformidade tributária em junho de 2026.
Desse total, cerca de 3,1 milhões receberam classificação D, atribuída a empresas com nível de conformidade inferior a 70%, considerando regularidade cadastral, entrega de declarações, consistência das informações prestadas e cumprimento das obrigações.
Para não deixar seu negócio entrar para essa estatística, confira a seguir algumas dicas para aplicar a contabilidade fiscal do jeito certo.
Dica 1: organização
A organização é a base da gestão eficiente em todos os aspectos, inclusive no âmbito da contabilidade fiscal.
Portanto, mantenha todos os documentos fiscais organizados e em dia, incluindo notas fiscais, recibos, comprovantes de pagamento e contratos.
Há diversas ferramentas para isso, como sistemas de gestão financeira e ERPs que facilitam o trabalho.
Dica 2: atualização e conhecimento
As regras fiscais mudam com frequência, portanto, esteja sempre atualizado em relação às alterações na legislação.
O domínio das leis, normas e regulamentos é fundamental para garantir a conformidade da empresa e evitar problemas legais.
Dica 3: planejamento e estratégia
Realize um planejamento tributário eficiente, buscando identificar oportunidades de economia fiscal e redução de custos.
Avalie as diferentes opções de regimes tributários disponíveis e escolha aquele que seja mais adequado às características e necessidades da sua empresa.
Dica 4: controle e monitoramento
Mantenha um controle rigoroso das obrigações fiscais da empresa, monitorando os prazos de entrega das declarações e o pagamento dos tributos.
Utilize relatórios e indicadores financeiros para acompanhar o desempenho fiscal da empresa e identificar possíveis áreas de melhoria.
Dica 5: conte com a contabilidade online
Para fazer tudo isso de maneira fácil e prática, conte com parceiros especialistas que dominam o assunto.
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